Sessão na Câmara de Ilhéus.

Na tarde de ontem (18), a Câmara de Vereadores realizou uma audiência pública com o tema “A Semana da Consciência Negra e o 20 de novembro na Cidade de Ilhéus”. O debate sobre essa questão foi proposto pelo edil Cláudio Magalhães (PCdoB) e subscrito por Enilda Mendonça (PT). Para o Vereador, é momento de produzir um diálogo de forma ampla com todo o povo negro da cidade, movimentos sociais e instituições, dando voz a todos.
20 de novembro representa o Dia Nacional da Consciência Negra, data escolhida em memória de Zumbi dos Palmares, assassinado em 1695. “Durante este mês temos diversas manifestações em referência ao povo afrodescendente, e é de grande importância relembrar a memória de alguns ícones da resistência contra a escravidão e celebrarmos essas lutas atualmente”, disse Cláudio Magalhães. “Ilhéus foi construída usando a mão de obra escrava e hoje nossos morros é sinônimo de luta diária, principalmente das mulheres negras que trazem diariamente a condição dessa luta interminável, do combate ao racismo estrutural numa perspectiva de sobrevivência”, continuou o vereador.

“Para falar da consciência negra precisamos usar as estatísticas e entender qual nosso déficit. Basta olhar a estatística da mortalidade, das prisões, da violência doméstica, urbana, das pessoas em situação de rua e vemos que a maioria é negra”, afirmou a vereadora Enilda Mendonça durante o debate. Para a parlamentar, esta parcela da população está prejudicada pela ausência de políticas públicas. “As políticas que existem ainda não são efetivadas”, destacou.

A deputada Federal Alice Portugal (PCdoB) parabenizou a iniciativa da audiência, que trata da ferida aberta do racismo estrutural do Brasil. “Minha saudação vai em forma de grito “Por que foi criada a chaga do racismo?” Tratamos hoje da memória de Zumbi dos Palmares, dos príncipes e princesas que foram trazidos da África e construíram nosso país, mas que infelizmente continuam na pobreza”, salientou a deputada. Já para Rodrigo Rocha, representante da Defensoria Pública de Ilhéus, o racismo estrutural não será resolvido do dia para a noite. “Já temos 500 anos de história e estamos aqui ainda discutindo esse tema, a violência contra os negros trazidos da África foi grande e será necessário muitos anos para reparar e nos tornarmos uma sociedade justa e igualitária”, destacou o Defensor.

A pedagoga, advogada e presidente da Comissão da promoção de igualdade racial da OAB de Ilhéus defendeu que só quem está no lugar de fala é que pode sentir e atestar essa dor e apresentou propostas para o município, como a criação do Conselho municipal de promoção e igualdade racial, rede de apoio em combate a intolerância religiosa e de uma Secretaria municipal para tratar a promoção da igualdade racial.

O Major Jalba Santiago, do NAFRO (Núcleo de religiões de matriz africana) da Polícia Militar da Bahia, salientou que é uma luta que precisa acontecer em todos os planos ao mesmo tempo, para conseguir combater o racismo. “Não há mais tempo para discutir, estamos atrasados. De 500 anos, foram 300 anos de escravidão legitimados pelo Estado”, lembrou o Major.

Também presente na discussão, a Presidente do Conselho de Cultura de Ilhéus, Janete Lainha, falou sobre o silêncio também ser racismo. “Se você não denunciar tudo vai continuar. O racismo é um sistema social, uma opressão que é uma engrenagem. Enquanto não tomarmos para nós a responsabilidade de combater e mudar a forma como aprendemos e ensinamos, a engrenagem continuará perversa”, disse Janete.