Do Blog do Gusmão

Na última quarta-feira (7), a pedido da nova diretoria do Satélite Esporte Clube de Remo, este blog foi à sede da Associação Comercial de Ilhéus para ouvir os diretores sobre a disputa que envolve o antigo terreno da agremiação. Na oportunidade, conversamos com o presidente David Dantas, o vice-presidente Eduardo Carvalho (Siri), o primeiro secretário Jorge Menezes e o tesoureiro Aracildo Barreto. Eles pretendem ir à Justiça para tentar restituir ao patrimônio do Satélite a área que hoje pertence ao casal José Bispo dos Santos e Maria do Carmo Farias.

O casal ganhou os três lotes do terreno em 2006, como resultado de dois processos trabalhistas contra o clube. Ao fim das ações, a Justiça do Trabalho definiu que o Satélite tinha uma dívida de R$ 31.619,22 com a senhora Maria do Carmo e de R$ 56.813,59 com o senhor José Bispo. Quando eles reivindicaram os direitos, seu filho, o ex-vereador Dero Farias (PT), era o presidente do Satélite.

Para os diretores, Dero não se esforçou para defender os interesses do clube nos processos movidos por seus pais. “Dero presidente, os pais reclamam. Ele vai na audiência, o advogado [do clube] aceita todo débito apresentado, sem nenhuma contestação, e faz um acordo. Desse acordo, ele [Dero] não cumpre o pagamento de nenhuma das parcelas. Como ele não paga nenhuma das parcelas, na segunda parcela vencida os advogados dos pais dele, os reclamantes, pediram a execução total da dívida – a lei admite isso – e [o patrimônio do clube] foi à ‘praça’. Ninguém arrematou. Ninguém fez lance, e o juiz adjudicou os bens em nome dos pais dele. E ele assim se apossa da área indiretamente. Está morando lá dentro. Construiu um sobrado”, declarou David Dantas.

O terreno onde o Clube Satélite se estabeleceu na década de 1980 fica numa das áreas mais belas de Ilhéus, diante da baía do Pontal. Os diretores estimam que o lugar vale pelo menos R$ 1,5 milhão, “sem considerar as benfeitorias”, disse Jorge Menezes.

Antigo terreno do clube à margem da baía do Pontal. Fonte: Ascom/Câmara de Vereadores de Ilhéus.

Segundo Jorge Menezes, Dero anteviu a situação atual da propriedade e “hoje faz daquilo um negócio”. “Explora comercialmente. Cobra a descida e a guarda de embarcações. Aluga o espaço para eventos. Mora lá dentro junto com os pais. Explora o bar. É como se fosse assim: ele deixou acontecer para se beneficiar. Ele projetou na cabeça dele o que poderia ocorrer. Deixou [o processo] correr praticamente à revelia”, concluiu.

Os diretores acreditam que têm um trunfo para anular a decisão da Justiça que tirou o terreno da pessoa jurídica do clube. Ao falar disso, Dantas fez mistério. Disse que não quer dar munição para as outras partes.

Na última terça-feira (6), a Justiça homologou o resultado da assembleia que constituiu a diretoria atual do Clube Satélite. Os diretores comemoraram a decisão como passo importante para o resgate da agremiação fundada em 1925.

O outro lado.

O ex-vereador Dero Farias. Imagem: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Na tarde de hoje (9), o Blog do Gusmão foi à área que pertenceu ao clube para conversar com Dero, que nos recebeu acompanhado pelo senhor José Bispo. O ex-vereador disse que os depoimentos feitos pelos diretores do Satélite na internet ferem a honra da sua família. “Se eu cometi algum ato ilegal, como eles dizem, por que não procuraram a Justiça para fazer essa reparação? Ficam denegrindo minha imagem nas redes sociais. Para isso, já contratei advogado, que está tomando as providências. Não vou ficar respondendo essa questão em redes sociais. Eles estão me ofendendo, cometendo crime, eu estou indo na Justiça por uma questão legal, para fazer essa reparação”.

Ao contrário do que foi dito pelos diretores, Dero disse que não mora na casa dos seus pais, mas sim, numa residência própria na zona sul da cidade.

Segundo Dero, a reintegração de posse devolveu os lotes 1 e 5 à propriedade do Boca du mar. Na época, o Satélite ficou com os seus lotes originais: 2, 4 e 3 – esse último com acesso à baía. Imagem: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Dero Farias assumiu a presidência do Satélite em 1993. Na época, o clube já respondia processo de reintegração de posse e foi obrigado pela Justiça a desocupar áreas que integram o terreno do Boca du mar. “Antes, o espaço que hoje é ocupado pelo deck e o restaurante do Boca du mar era o campo [de futebol] do Satélite”, disse. Segundo o ex-presidente, a decisão  acentuou a crise financeira do clube. “A reintegração matou a renda que era gerada pelo futebol”.

Conforme Dero, em relação ao resultado dos processos trabalhistas, a diretoria atual do clube tem que provar que seu pai “não trabalhava aqui dia e noite”. Se fosse colocar a rigor da lei, hoje o Boca du mar trabalha com três pessoas. Aqui era só ele [José Bispo] para vigiar e cuidar, e na época minha mãe trabalhava no bar”.

Ainda segundo o ex-vereador, o acordo entre o clube e seus pais foi feito na Justiça para ser o mais transparente possível. Ao contrário da informação de Dantas, Dero disse que a sua gestão chegou a pagar parcelas do compromisso trabalhista. “Tentamos fazer de todas as formas para pagar, inclusive pagamos algumas parcelas. Só que eu não tinha condições de pagar só do meu bolso, precisava recolher, até pela aposentadoria do meu pai. Eles [os diretores atuais] nunca apareceram. A gente fez campanha, fez tudo. Saiu em jornal”.

Dero afirma que não induziu o judiciário a erro. “Se eu induzi a Justiça a erro, tive que induzir não só a Justiça, que decretou, mas também a praça, para ninguém arrematar. Todos os trâmites legais desse processo aconteceram”.

O ex-presidente questiona por que os membros da diretoria atual não se juntaram aos esforços para preservar o patrimônio do clube naquela época. “Seria justo se eu falasse assim: ‘não, meu pai, você não vai receber, não’. Mais de quinze anos trabalhando aí sem receber nada. Isso é justo? Eles se dizem sócios, quando eles contribuíram com mensalidade? Provem que contribuíram com o clube para a gente manter [o patrimônio]. Ou querem só usar e acham que não tem custo?”.

Dero também contestou a afirmação segundo a qual ele havia previsto o destino da propriedade em questão. Para o ex-vereador, a adjudicação do terreno foi uma consequência legal da execução da dívida trabalhista.